Gustavo Giardi Belas Pereira | X-Reality Engineer | everis Brasil

A forte relação entre indústria 4.0 e a Realidade Aumentada

Nos últimos anos a Realidade Aumentada tem evoluído e ganhado seu espaço no mercado. O que antes se limitava aos devices high-end e imagens de tracking para projetar os elementos virtuais, hoje tem se tornado cada vez mais acessível e aberta para diversas aplicações.

Caminhando de smartphones até óculos dedicados a esta, é fácil imaginar que a Realidade Aumentada nos trará grandes mudanças na forma como consumimos informação, substituindo os displays bidimensionais pelo espaço físico das grandes cidades. Não somente nossas ruas serão preenchidas com novas camadas virtuais de informação, como nossos objetos serão ressignificados por essa tecnologia.

Com tal perspectiva, vale discutir como ocorre o mapeamento de objetos para a Realidade Aumentada, bem como suas possíveis aplicações de mercado e entender porque a ancoragem de objetos é tão importante para as futuras experiências em Realidade Aumentada (RA).

Em aplicações RA, chamamos de ancoragem o ato de vincular um elemento do mundo real como referência para o posicionamento dos elementos virtuais. Essa âncora pode ser desde uma imagem em uma placa ou folha de papel até um plano mapeado em tempo de execução do aplicativo.

Outro tipo de ancoragem que pode trazer várias possibilidades de experiências é o Object Anchoring. Este consiste em vincular um objeto tridimensional do mundo físico como referência de posição dos elementos virtuais, mapeando o objeto como um todo e não suas faces separadamente.

Esse tipo de mapeamento possibilita criar experiências RA de alta precisão cujo conteúdo da projeção esteja relacionado com o objeto mapeado. Assim, podemos usar a Realidade Aumentada para ilustrar novas características e funcionalidades no objeto que antes eram invisíveis ou não muito intuitivas. Podemos, também, usar os elementos virtuais para direcionar o olhar do usuário pelo objeto real, como uma forma de guia-lo em seu manuseio.

Outra possibilidade para o Object Anchoring é criar novas interações entre objetos distintos. Mapeando dois objetos simultaneamente podemos estabelecer novas funcionalidades ativadas pelo posicionamento de um em relação ao outro, criando uma espécie de interface tangível Phygital.

Fonte: Blog Kabum

Com seu grande potencial de ressignificar os objetos, é fácil imaginar infinitas aplicações para essa tecnologia.

Focando em treinamentos, é possível mapear grandes máquinas da indústria para usar a Realidade Aumentada a fim de ensinar os profissionais tudo o que precisam saber sobre ela, desde seu manuseio até a manutenção. Projetando novos elementos na máquina, podemos guiar o olhar do usuário para pontos chave e dar instruções sobre o uso do equipamento.

Mapeando mais de um objeto, podemos criar fluxos que auxiliam a montagem de peças e acompanham o progresso do usuário. O aplicativo consegue reconhecer quando duas peças estão encaixadas uma na outra e prosseguir automaticamente para a próxima etapa da tarefa.

Fonte: Blitzz.co

Também podemos reformular como nossos equipamentos nos dão suas informações, substituindo telas e outros tipos de displays por uma interface RA. Um componente de uma máquina pode exibir, quando detectado, informações importantes sobre seu funcionamento, como temperatura, pressão, peso ou carga. Removemos a necessidade de telas e transportamos as informações para o espaço físico da máquina, podendo muitas vezes trazê-las para o local onde serão utilizadas.

Tendo conhecimento das informações sobre as máquinas, podemos usar os elementos ancorados nelas para disparar ações. Interagindo com elementos virtuais da Realidade Aumentada é possível mandar comandos para controlar este ou outros equipamentos. Assim, as interfaces RA deixam de ter um comportamento passivo de somente obter informações do objeto mapeado e começam a agir ativamente, mandando informações e comandos para ele. Removemos assim a necessidade de alguns botões e interfaces físicas e criamos formas de manipular as máquinas com interfaces maiores, mais simples e intuitivas.

Fonte: Diginomica

Também é possível inverter essa lógica, fazendo com que os objetos físicos forneçam comandos para o ambiente virtual. Com o Object Anchoring podemos facilmente criar interfaces tangíveis Phygital, onde o usuário interage com o virtual por meio dos objetos reais. Com esse tipo de interface seria possível controlar o ambiente movendo objetos em uma maquete, por exemplo.

Esse tipo de abordagem pode tornar a experiência mais rápida e intuitiva para muitos usuários, além de ter um grande potencial na área da publicidade. Provocar o cliente a interagir com o produto auxiliado por uma interface RA pode causar um grande impacto, além de fixar a marca na cabeça do consumidor. A Realidade Aumentada pode levar o usuário a experimentar o produto e mostrar informações que poderiam ser despercebidas em uma experimentação sem o auxílio da tecnologia.

Ainda falando sobre publicidade, vale citar a campanha do Natal de 2018, quando a Coca-Cola usou o Object Anchoring para mapear suas latas e garrafas para projetar animações comemorando a data. A experiência rodava por meio de um aplicativo instalado que induzia o usuário a apontar a câmera para os diferentes modelos de embalagem da bebida.

Fonte: Canal GoViral no Youtube

Podemos imaginar o Object Anchoring agregando a experiências dentro da casa dos usuários comuns. Manuais de instrução com essa tecnologia tornariam a montagem de produtos complexos muito mais fáceis. Muitos dos equipamentos que temos na nossa casa, como aparelhos de TV a cabo e modems de internet, poderiam ser reparados por nós mesmos usando um aplicativo RA, sem precisar ligar para um canal de assistência ou requisitar uma visita técnica.

Fonte: everis Brasil

Por fim, imaginando um futuro onde os óculos de Realidade Mista se tornarão tão populares quanto os smartphones são hoje, qualquer tipo de experiência do ambiente físico que interaja com o mundo virtual poderá ser iniciado com um simples olhar para o objeto, sem precisar tocar em qualquer aparelho. Apenas olhando para um produto, poderíamos obter informações sobre ele na internet, adicioná-lo a uma lista de compras ou ver diferentes cores e modelos do mesmo.

Apesar de clara a sua capacidade de agregar valor a muitas experiências, a tecnologia de Object Anchoring ainda tem muito a evoluir. Os processos que conhecemos hoje para mapear objetos são muitos trabalhosos, o que muitas vezes inviabiliza os projetos. Seria muito caro para uma companhia automotiva, por exemplo, mapear cada componente de um carro para criar uma experiência que ressignificasse seu produto.

Além do alto esforço demandado, o rastreio de objetos ainda enfrenta muitas barreiras técnicas. Com a tecnologia de hoje não é possível mapear qualquer produto. A maioria dos métodos exigem que o objeto tenha texturas marcantes e/ou cantos e formas bem definidos. Objetos muito simples e lisos dificilmente são reconhecidos pela Realidade Aumentada.

Por conta disso, ainda é mais palpável ver essa tecnologia ser aplicada em provas de conceito, experiências mais simples ou peças publicitárias. A evolução da tecnologia trará sua aplicação em larga escala, bem como a popularização da Realidade Aumentada e seus devices dedicados e a mudança de perspectiva do design dos produtos, que podem ser alterados para se encaixar a essa nova tendência.

Com a Object Anchoring. Conforme os dispositivos evoluem e adquirem mais sensores, a tecnologia obtém mais ferramentas para executar essa ancoragem. Um bom e atual exemplo da evolução dos dispositivos RA é o iPhone 12 Pro, que possui o sensor LiDAR. Este é capaz de obter com precisão a distância dos objetos vistos pela câmera medindo as propriedades da luz refletida. Além de trazer experiências de Realidade Aumentada mais robustas, é possível que este tipo de sensor reformule completamente a forma como mapeamos objetos.

Além dos smartphones, temos os óculos dedicados à Realidade Mista que a cada ano mostram estar mais próximos de uma possível popularização. Empresas como Facebook, Apple, Lenovo e algumas startups já estão investindo em dispositivos completamente focados nessa tecnologia. Em breve o acesso a estes dispositivos será massificado, trazendo um poderoso movimento migratório do uso de smartphones para os novos óculos. Consequentemente, veremos um largo salto tecnológico para tudo que envolve a Realidade Aumentada.

Contudo, o Object Anchoring não pode e nem deve esperar a evolução do hardware para continuar se aprimorando. Em paralelo à corrida tecnológica dos dispositivos, ambientes e objetos. Usufruindo da Visão Computacional e do Machine Learning, estes têm tornado as aplicações de Realidade Aumentada cada vez mais precisas e fáceis de serem implementadas e podem criar novos métodos de ancoragem de objetos.

Obtendo novos recursos e técnicas, o Object Anchoring pode trazer uma nova forma de como enxergamos e interagimos com nossos objetos. Este avanço não trará um impacto somente tecnológico, como criará novos desafios para o design de produtos, que deverão ser adaptados a essa nova realidade. Por conta disso, cabe também aos designers a responsabilidade sobre quais novos significados seus produtos trarão em um mundo virtual e adaptá-los a fim de torná-los compatíveis com a tecnologia.

Exponential intelligence for exponential companies

Get the Medium app

A button that says 'Download on the App Store', and if clicked it will lead you to the iOS App store
A button that says 'Get it on, Google Play', and if clicked it will lead you to the Google Play store