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Núnez Garcia | Sócio | everis Brasil

Até poucos dias atrás, os bancos competiam na Maratona da Transformação Digital…

Até um organismo microscópico ter mudado tudo, o que também alterou as regras da competição. O que seria uma maratona de força, estratégia e resistência com vários anos e muitos quilômetros pela frente, acabou sendo reduzido a uma prova de apenas um quilômetro! A resistência já não tem mais importância, e a inovação que seria descoberta não é relevante. A única coisa que importa é chegar o mais rápido possível e estar entre os primeiros. Ou o mundo se torna digital, ou não conseguiremos ter uma grande quantidade de serviços necessários.

Com metade do planeta praticamente confinado, a realidade é que, mesmo não podendo sairmos, o mundo continua girando. Ainda precisamos fazer compras no supermercado, pagar as contas de água e luz, estar em dia com os impostos (ainda que algumas políticas sejam mais flexíveis), e as empresas, mesmo que operem em ritmo mais lento, ainda têm fornecedores e credores, serviços de logística, transporte, segurança… Tudo isto deve continuar funcionando. E os bancos, são peça fundamental neste grande ciclo.

Os bancos estão na corrida com um objetivo claro: disponibilizar canais digitais para que todos os seus serviços e produtos possam ser oferecidos digitalmente. Isto, que parece simples, não é tão simples assim.

Todos nós, que nos consideramos clientes digitais, fazemos uso de aplicativos em dispositivos móveis, mas nunca foi necessário realizar absolutamente todas as nossas operações diárias de forma digital.

Imagine aposentados, empresas, gestão de fornecedores e credores, gestão de risco, comércio exterior e operações internacionais, gestão de investimentos, operações financeiras governamentais, logística de produção e a forte demanda por crédito que será necessária nos próximos meses ou anos. Ainda assim, será necessário ir a uma agência bancária para realizar muitas operações que não são consideradas básicas. Também será necessário ir a dezenas de órgãos públicos para realizar inúmeros procedimentos administrativos e financeiros, empresas de saúde com procedimentos manuais, documentação necessária para muitos procedimentos bancários, e citamos somente alguns dos serviços.

Além disso, para tornar o desafio ainda mais interessante, neste momento surge um medo natural do contato com o dinheiro físico, que passa de mão em mão. O mercado de pagamentos exige soluções digitais de forma muito rápida, e que sejam acessíveis a qualquer faixa de renda ou classe social. Agora mais do que nunca, é necessário que o Open Banking se torne uma realidade de forma rápida e prática, e que os bancos estejam abertos a instituições, bens e serviços ao consumidor, comunicações, saúde, serviços públicos, indústria, e todas as necessidades básicas do dia a dia.

Nenhum de nós está realmente preparado para este tipo de situação. Sem clientes, sem bancos. Este é um dos maiores desafios da nossa sociedade, em um espaço de tempo realmente curto, e uma das maiores oportunidades que temos como sociedade para aprender, adaptar-se a um mundo mais digital e sair da zona de conforto, mesmo que seja por necessidade.

No Brasil, o desafio é maior e o último quilômetro é ainda mais íngreme…

De acordo com dados do Banco Central do Brasil, quase 70% dos adultos têm baixo nível educacional. Um pouco mais de 40% são classificados em nível elementar (textos médios, operações básicas, não dominam o cálculo de porcentagem), e um pouco mais de 25% têm dificuldade em reconhecer cartas e frases, ou não compreendem um texto simples. Existe um número considerável de pessoas que não possuem conta bancária, e quase metade dos clientes dos grandes bancos não utilizam aplicativos móveis porque desconhecem, ou não possuem dispositivos móveis com recursos para o funcionamento de aplicativos, ou simplesmente não possuem infraestrutura de rede móvel para o acesso. “A economia informal” representa um número muito alto na economia do país, onde o comércio ambulante, o vendedor de café, bolos, panos, alimentos, necessita tanto quanto os demais, de soluções de pagamento ou conseguir acesso ao o sistema financeiro. Este é o maior desafio dos bancos do país, que além de competirem na digitalização dos serviços, vão precisar realizar um trabalho de educação financeira, de ensino e de aproximação com este grupo.

As grandes instituições financeiras do segmento varejista estão mais ou menos no mesmo nível nesta disputa, e agora vamos ver quem é mais rápido e ágil na implementação de processos sólidos, com impacto na sociedade e que permitem a escala dos serviços. Também veremos quem são as instituições que apostaram na formação, na educação e em trazer soluções tecnológicas simples para aquele segmento da população mais desfavorecido e que necessita de soluções. Todos nós teremos um grande trabalho pela frente visando uma rápida adaptação, pois esta corrida vai acabar, e vamos rapidamente iniciar uma nova competição que ainda não sabemos onde vai nos levar.

*Os dados de Treinamento e Educação do Brasil pertencem ao Banco Central do Brasil.

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