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Ricardo Roberto Trigo| Gerente Executivo de Digital Experience | everis Brasil

O Ágil apressado, nos enganando pela aparência

Sempre vejo muitas pessoas tratando a palavra ágil como um simples sinônimo de “rápido” ou “pressa”. Se buscarmos no dicionário esta comparação faz sentido. Mas quando tratamos este termo dentro de um contexto onde as empresas estão acelerando sua transformação, unindo tecnologia, negócios e principalmente pessoas, este termo de longe deveria ser tratado como algo diferente.

Dentro desta transformação, onde o digital é o meio e não o fim, temos cada vez mais que responder rápido às mudanças que nos cercam dia após dia. Devemos testar novas hipóteses sabendo que iremos errar (e podemos, veja só!), mas que teremos serenidade para absorver os aprendizados, fazer ajustes e compartilhar, para seguirmos o caminho certo da mudança. O objetivo incessante das empresas deve ser sempre a busca por encontrar novas formas de permitir a melhora contínua e produtividade das suas equipes, para atender seus clientes da melhor forma possível, colocando-o no centro, com a melhor experiência possível, no melhor momento, de maneira personalizada e, se possível, com tratamento único.

Só que a necessidade destes clientes muda. Muda constantemente. O que dirá então agora em tempos de pandemia (advento do COVID-19), onde a aceleração para esta transformação foi notória, forçando empresas e mentalidades mais céticas a se mexerem como nunca antes visto nesta era digital.

E é aí que muitas empresas, departamentos, projetos e pessoas se equivocam, ao meu ver. Eles querem correr, fazer algo rápido e no menor tempo possível. Faz sentido, afinal a resposta deve ser rápida. Mas adicione neste pacote a vontade de fazerem e entregarem, em um espaço curtíssimo de tempo, simplesmente TUDO! Sim, com letras em maiúsculo. E a maioria tranquilamente, ou por desconhecimento, chama isso de MVP (Minimum Viable Product), o produto mínimo viável.

Trabalho em tecnologia há mais de 20 anos e posso dizer que na maioria dos projetos que participei obtive sucesso no resultado. Mas veja: sucesso no resultado e não sucesso no projeto. Parece estranho, mas o que quero dizer com isso é que quando olhamos para o modelo tradicional de execução de projetos e analisamos os pilares de escopo, prazo e custo, nenhum deles, repito, nenhum deles em que participei foi realizado conforme planejado em seu início. Mas digo que obtive sucesso no resultado pois, considerando todas as mudanças ao longo do projeto e realinhamentos constantes com o cliente, o resultado chegou.

Nesta hora me vem a célebre frase: “Plans are useless, but planning is everything”. Esta frase surgiu nos anos 1950 e existem algumas variações dela. Não há certeza de sua origem, então não citarei aqui nenhuma fonte específica.

Chegamos então ao ponto que me trouxe a esta reflexão, que envolve nosso trabalho utilizando metodologias ágeis, mas mais que isso, que envolve uma mudança de mentalidade para a entrega de valor pensando no constante aprendizado. Nesta hora muitas empresas se animam com as metodologias mais recentes, pensam em fazer o diferente, olham para o ágil e resolvem iniciar seus projetos rejuvenescidos nestes termos. Mas é aí que a coisa dá um nó estranho na cabeça de todo mundo. Ouço frequentemente isso: “Vamos fazer entregas ágeis, mas a data de lançamento já está fechada!”, “Vamos Sprint por Sprint, mas preciso de um cronograma completo e detalhado!”, “Vamos manter as dailies (reunões diárias), mas me monte um gráfico de riscos e as ações contra eles planejados!”, “Vamos só focar no MVP mesmo, claro, mas é um MVP do produto completo!”.

Por que há tanta dificuldade em alinharmos o conceito de MVP, por exemplo? Por que iniciamos um projeto nos organizando em objetivos, perfis, sprints e cerimônias, mas que no dia a dia se transforma em uma gestão de projeto tradicional com “ritos ágeis”? Por que as pessoas dizem entender e acreditar nos benefícios que um modelo ágil traz, mas não se permitem tentar realmente aplicá-la em sua totalidade? Por que ainda há uma dificuldade na condução da transparência sobre o que é possível realmente ser entregue, obstáculos que surgem no caminho que fazem mudar algumas entregas e a clareza de que o ágil começa por entender o que é de fato valor a ser entregue ao cliente e contínuo aprendizado sobre o que estamos entregando?

Sabemos das dificuldades que muitas pessoas ainda tem em dar protagonismo para os times, para a auto-organização, em trazer também o cliente para o centro do trabalho, aproximando todos e trazendo clareza para o que precisa e principalmente o que pode ser, ou será, entregue primeiro, mesmo que ainda em uma versão inacabada, mas em um modelo que chamamos de “Relacionamento Smart”, onde todos protagonizam e compartilham das dores do dia-a-dia.

Deixo aqui as perguntas pois ainda não tenho as respostas claras. Tenho alguns insights, mas para mim a hipótese mais clara ainda esteja na mentalidade da alta gestão executiva, muitas vezes tomada pelo conceito “comando e controle” que até aqui sempre foi trabalhada, tirando autonomia e auto estima dos times que conduzem os projetos no dia a dia. Talvez estes times se alimentam do receio em não entregar o que foi pedido a eles, seja pelo bônus que está atrelado, seja pela sensação de não poder falhar, seja pela sensação de perder aquele “budget” que estava previsto para o projeto ou seja pela simples falta de transparência e permissão de seus líderes em fazer algo diferente, algo que acreditam que possa trazer mais valor para seus clientes e de uma maneira melhor do que foi feito até agora.

Acredito que isso limite a evolução de uma filosofia que existe há décadas, como o Lean, que se provou eficaz por onde passou, mas que ainda possui barreiras para uma aplicação mais generalizada nas empresas muitas vezes movida por uma falsa sensação de “controle” daquilo que está sendo produzido pelos times.

Você acredita que podemos mudar este jogo? Acredita que podemos fazer diferente?

Basta começarmos com qualquer mudança, qualquer ação, hoje mesmo. O que você pode fazer de diferente na próxima segunda-feira?

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